Exortação ao conhecimento simbólico das cores

Círculo das cores (ilustração de Goethe, 1809)

Qualquer via espiritual seja iniciática, metafísica ou religiosa, que lide com o simbolismo das cores, não pode prescindir do conhecimento dos fenómenos físicos associados ao cromatismo dada a correspondência directa entre a ordem material e a espiritual. O mesmo acontece com a pintura que pode ser, simultaneamente, uma arte manual transformadora da Natureza e uma via espiritual.

Muitos autores, filósofos, artistas, físicos, simbolistas e até poetas redigiram tratados sobre o tema. Citem-se apenas dois:

Frédéric Portal (1804-1876) um simbolista francês, autor da obra “Des Couleurs Symboliques”,[1] excelente manancial de informação sobre o tema, analisando cada cor em três níveis diferentes: o Divino, o Sagrado e o Profano.

Gohete, (1739-1832) poeta germânico com o seu excelente “Traité des Couleurs”,[2] em que se misturam dados da física experimental com uma concepção metafísica da realidade.

Portal aprofunda o simbolismo cromático de acordo com diversas tradições, abordando uma extensão cronológica que vai da Antiguidade Clássica ao mundo moderno e desenvolvendo muitas considerações sobre o período medieval. Goethe revolucionou as concepções concernentes à Luz e ao cromatismo. Para Newton, a Luz era constituída pela mistura de todas as cores. Para Gohete, as cores eram filhas da dialéctica entre o branco e o preto, entre luz e treva, com todas as consequências espirituais de uma transposição simbólica em conformidade.

Sabemos que as cores são perceptíveis ao olho humano dado que cada uma delas corresponde a um comprimento específico de onda que os objectos emitem quando iluminados. A antiga tradição ocidental considerava existirem duas famílias complementares: a dos azuis, aparentados com a treva e a dos vermelhos aparentados com a luz. Ao centro, o verde mediador entre uma e outra estirpe, cor emblemática da Criação, onde luz e treva se equilibram perfeitamente. Gohete convidava à experiência visual desta concepção:

Tome-se uma folha de papel branco, coloque-se, ao centro, um quadrado negro e observe-se o conjunto através de um cristal prismático. À roda do quadrado negro, ver-se-á um filete de cor azul, separando-o da brancura do fundo. Conclusão, as trevas – quadrado negro – vistas através da luz – folha branca – revelam o azul.

Tome-se depois uma folha negra, coloque-se no seu centro um quadrado branco e observe-se através do prisma. À volta do quadrado ver-se-á um filete vermelho. Conclusão,  a luz – quadrado branco – vista através da treva – folha negra – é vermelha.

À família dos azuis correspondem todas as modalidades desta cor, que vão do ultravioleta até ao verde, cada um delas dependendo da quantidade de luz e treva que a informe. A família dos vermelhos compõe-se também dos laranjas e amarelos, desde o infra vermelho até ao verde central. Este verde provem do mais claro amarelo e do mais claro azul e surge no ponto em que ambos se misturam. Em sentido diametralmente oposto, o violeta obtém-se da mistura do mais escuro dos vermelhos com o mais escuro dos azuis. Violeta e verde são, pois as extremidades complementares da roda cromática.

Cada cor tem o seu mistério, o seu pulsar, a sua personalidade, qual criatura que, na verdade, é. Não criatura animada, como é evidente, mas criatura enquanto elemento suscitado pela Criação, fazendo parte da natureza e tendo nela a sua função. Alguém que lide operativa ou especulativamente com as cores como sendo entidades vivas, semelhantes a personagens, terá aberto a porta para uma dimensão mais profunda da consciência acerca da realidade, uma vez que ao conhecimento dos aspectos sensíveis juntou a percepção de outros que estão para além dos sentidos, mas que nem por isso deixam de ter a sua relevância, sobretudo para quem exija uma percepção mais alargada da realidade.

Muito haveria a dizer sobre as cores, cada uma por si e pelas indicações que nos dão, na sua qualidade de símbolos, representando princípios arquétipos que enformam a realidade. O tema é vastíssimo e não caberia num pequeno artigo como o que aqui se apresenta. Para tanto, aconselha-se a obra de Portal já referida que existe em PDF gratuito em “ebooks”.

Estas considerações, aparentemente deslocadas para quem queira ter acesso rápido e superficial à simbólica das cores, são no entanto incondicionais para se avançar de modo aprofundado, seja em termos teóricos ou práticos, especulativos ou operativos, no domínio do simbolismo cromático.

Todas as escolas tradicionais, todas as tradições e todas as religiões encontraram no cromatismo um repertório simbólico muito expressivo. Em termos não sagrados, todavia tradicionais, essa simbólica teve a sua versão mais exterior na emblemática e na heráldica.

As cores estão presentes na escola pitagórica, na nomenclatura cabalística, nos atributos astrológicos dos corpos celestes, nas cores da obra alquímica, na iconografia religiosa e, de um modo geral, em todas as disciplinas em que a imagética tem uma função determinante. Por sua vez, o cromatismo que a acompanha as formas gráficas constitui, em conjunto com elas, um veículo supra sensível apelando directamente à memória atávica, com o fim de dar a intuir uma realidade espiritual que, pela sua natureza transcendente, não se representa directamente à consciência humana, senão por interpostos símbolos, como é o caso das cores. E, ao falar-se de símbolos convém ter sempre presente a ideia de que o símbolo é oriundo da própria natureza e não da imaginação humana. O que de mais semelhante ao símbolo o Homem pode congeminar será o mito ou a alegoria.

Com efeito, os verdadeiros símbolos são de origem natural, constituindo o modo como a natureza mostra, por reflexo no mundo sensível e manifestado, princípios de ordem espiritual, ininteligíveis na sua essencialidade intrínseca. No fundo, trata-se de entender a natureza na sua totalidade e diversidade, como um conjunto completo de símbolos em que se espelham, em substância, as pulsões criadores e os próprios princípios insubstanciais. Deste modo, a realidade da natureza não é mais do que o espelho ou o eco de uma outra realidade que lhe deu origem e que lhe é superior.

Para o cultor de uma arte espiritual operativa, como eventualmente pode ser a pintura, o simbolismo das cores constitui o livro canónico que conduz à coerência prática da relação entre o que se pinta e o cânone que determina a unidade universal de todas as coisas. Nesta disposição há que ter em conta o modo como a lei das analogias parece organizar  o  cosmos em grupos de elementos que, a despeito de se manifestarem em diferentes planos de realidade, comungam da mesma natureza e se tornam homólogos entre si, como se entre certos anjos e certas pedras houvesse um parentesco aparentemente oculto. Para o cultor de uma arte espiritual especulativa, o simbolismo das cores é uma cartilha ou uma guia de marcha para o envolvimento na compreensão teórica da existência e do Ser.

Carcavelos, Outubro 2017

Carlos Dugos

 

[1] “Des Couleurs Symboliques”, Frédéric Portal. Éditions de la Maisnie, Paris, 1975

[2] “Traité des Couleurs”, J. W. von Goethe. Ed. Triades, Paris, 1993.

2 meses ago

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