Submissão ao tempo e sentido intemporal

Dance to the Music of Time - Nicolas Poussin
Dance to the Music of Time – Nicolas Poussin

Desde sempre houve a distinção entre o que, sendo temporal, corresponde aos aspectos episódios e provisórios da vida, por oposição ao intemporal ou ao que, sendo espiritual, diz respeito ao que é eterno e não está sujeito às contingências do tempo.

Ao poder temporal, exercido por entidades imperiais, reais ou de qualquer modo liderando a vida comum dos povos, sempre se opôs a autoridade espiritual, cometida ao sacerdócio e à noção de intemporalidade do sagrado. O aforismo evangélico: “A César o que é de César e a Deus o que é de Deus” teria ganho toda a oportunidade quando, algures da Idade Média, eclodiam as disputas entre o partido guelfo, defensor de um Papado que à autoridade espiritual acrescentava o poder temporal e o movimento gibelino dos que, embora reconhecendo a autoridade espiritual do Papa, não lhe reconheciam o direito ao poder, considerado privilégio e função unicamente pertencente à realeza.

Introduzida esta dicotomia note-se o modo como, na actualidade, a autoridade sacerdotal representada pelo Papa, não só se torna interventiva nas questões que dizem unicamente respeito ao poder e que são de ordem política, como submete os fundamentos espirituais e intemporais, às modas do tempo, à temporalidade.

Já não se trata de um vício de acumulação ilegítima de poderes mas um desvio que inverte a ordem natural das coisas, submetendo o mais alto ao mais baixo, tendência que é um dos sinais capitais do tempo actual. Apesar de se conceder a Deus o que é de Deus e a César o que é de César, sem dúvida que Deus é sempre superior a César porque Deus é intemporal e César está sujeito ao tempo. Mais que misturar o sagrado com o profano há agora a tendência de submeter o sagrado ao profano, dando mais valor às vicissitudes do tempo que à perenidade do espírito, sacrificando a natureza eterna do Homem à satisfação da sua condição mortal de indivíduo consignada no tempo que passa.

 

Carcavelos, Abril de 2017

 

Carlos Dugos

12 meses ago

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *