Corrupções fonéticas e simbólicas na maçonaria antiga e moderna

Grid With Symbols – Alexander Calder

A falta de entendimento sobre algumas palavras e símbolos, ou por via de uma ignorância legítima ou por conveniências interpretativas, ao sabor de desígnios de raiz religiosa, levaram ao obscurecimento de certos dados originais em uso na Maçonaria.

Exemplo antigo: nas velhas oficinas operativas britânicas, era frequentemente citada uma personagem mítica, tida como génio da geometria, de nome Peter Gore. Naturalmente, este nome passava de geração em geração e os pedreiros que o pronunciavam não tinham a menor ideia de que essa personagem não era mítica mas histórica. O seu verdadeiro nome, sem corruptelas era pura e simplesmente Pitágoras.

Exemplo moderno: O significado da letra G, rodeada pela estrela flamejante, é alvo das mais diversas interpretações, na Maçonaria moderna, quanto ao seu significado. A versão britânica mais frequente é a de que expressa a ideia de Deus pela palavra God, o que é coerente com a tendência religiosa que caracteriza uma certa Maçonaria insular. Noutra linha e por outros desígnios, há quem veja nessa letra uma alusão à palavra Geómetra ou Geometria. Muitas outras interpretações existem; mas detenhamo-nos nestas duas.

Em ambos casos, por ignorância ou por determinação consciente, está-se perante uma corrupção do símbolo original hoje representado pela letra G. Nas antigas oficinas que praticavam o rito de York existia o seguinte dispositivo simbólico: na abóbada, ao centro da L, estava desenhada a constelação da Ursa Menor em que o lugar da Estrela Polar era indicado pela letra G. Desse ponto pendia um fio-de-prumo que apontava uma suástica desenhada no pavimento. Como é evidente trata-se aqui de uma alusão à relação entre o Céu e a Terra, sendo o fio-de-prumo o elo de ligação entre estas ordens de realidade.

Se a suástica representa o polo terrestre, à volta do qual a Terra gira – a suástica é sempre um símbolo polar ou uma indicação axial – a letra G representava o centro do universo, mais concretamente a estrela Polar à volta da qual “gira” o orbe celeste.

 

No entanto, desde a mais remota antiguidade, o símbolo da estrela Polar foi ou uma suástica de braços curvos, ou por uma espiral, semelhante ao algarismo 6, facilmente substituída por um G, dada a sua forma. Naturalmente, no lugar onde hoje deparamos com o G estaria originalmente uma espiral. “Quem” procedeu a essa substituição? Porque o fez? A passagem do modo operativo ao especulativo encerra muitos mistérios.

 

Eques Peregrinus

11 meses ago

8 Comments

  1. Julgo que fenómeno idêntico se passa com as corruptelas das palavras sagradas e de passe de vá´rios graus e de diversos ritos. Outras cuja significação se perdeu, se ou que foi limitada ao seu tempo, como por exemplo a palavra coberta do 25º grau do REAA: Johannes Ralp. cuja origem ignoro por completo.
    A representação da suástica que Guénon já tinha estudado como centro do mundo conduz-nos uma dimensão articulada entre o zenite e o nadir, mas em movimento aparente, uma vez que ele é feito no sentido dextrocêntrico (o mundo da aparência) e não sinocêntrico.
    Da espiral para o G temos como explicador o movimento sincrético, com a supressão de formas idênticas, tal como a apócope faz a supressão de fonemas, Penso que com esse movimento, a suástica como elemento reprpeentnativo, ou simbólico da terra , assume a sua dimensão co-axial com o universo, integrando-se nele, E bem sabemos ao simbolismo do seis – G – no equilíbrio da peprfeição, nos dois triângulos da estrela de David.
    Mas tudo isto são meras especulações que mais do que respostas suscitam novas dúvidas.

    1. Obrigado, Manuel Pinto dos Santos, pelo seu comentário. Exactamente! As corruptelas das palavras que funcionam como símbolos sonoros são muito frequentes. Julgo que há diversas razões que explicam o facto mas, uma há que me parece determinante: por serem palavras oriundas de línguas estranhas a quem as usa, fica oculto o seu valor semântico, a sua grafia correcta e a respectiva pronúncia. Isto facilita a alteração gráfica e oral. Infelizmente, na actualidade, poucos maçons investigam estes pormenores bastando-lhes uma consciência difusa e nublosa acerca do sentido das coisas com que lidam ritualmente. Relativamente ao caso que refere, creio que a fórmula do cobridor do XXV Grau do REAA é composta por um nome e um adjectivo. Originalmente, o nome seria Janu – bifrons – que com a cristianização dos Collegia Fabrorum se converteu João, também ele com duplicidade solsticial. É provável que o adjectivo seja “akal” – pronuncia-se “arral”, significando eterno, perene. Esta palavra designa os que alcançaram penetrar no Santo dos Santos. Assim sendo, o sentido da frase conduziria à ideia de perenidade do fundador da Ordem clássica dos construtores, no âmbito das corporações de mister detentoras dos mistérios da Arte Real.
      Quanto ao simbolismo espiralado e às correspondências celeste e terrestre, as associações que faz quanto à grafia árabe do seis e ao hexagrama parecem-me fundamentais. Se a tendência espiralada do seis indica movimento à volta de um ponto central, o duplo triângulo entrecruzado corresponde justamente à harmonização dos aspectos sagrados e humanos, à consubstanciação dos planos superior e inferior da realidade. Em coerência, julgo que o essencial remete para a função eminentemente maçónica que consiste em receber a influência do sagrado – do Céu – e transmiti-la à Criação – à Terra.
      Cordiais saudações.

      1. Muito agradecido pelos esclarecimentos e fico contente de ver que estamos em consonância. Já agora- se não for abusar – há uma questão sobre a qual sinto que os maçons pouco se debruçam- que é o valor mágico dos fonemas das palavras ditas sagradas. Não estou a falar no plano científico ou racional, mas noutros que certamente compreenderá, nomeadamente se nos referirmos ao hebraico. Há alguma obra/artigo séria, onde o assunto está contemplado ? Agradecia a ajuda possível. Abraço

        1. Manuel Pinto dos Santos, perdoe mas não creio que o termo “mágico” seja o mais apropriado para referir a repercussão de certos sons vocálicos na parte ultraconsciente dos seres – parte a que uma certa psicologia contempoirânea chama inconsciente. Em termos técnicos a magia – Arte dos magos – consiste na manipulação da Natureza com o objectivo de alcançar certos fins que não ultrapassam o âmbito do natural, da Criação. Na transmissão de impulsos espirituais, subentendida nos símbolos sonoros não há qualquer tipo de manipulação mas apenas o uso de representações sonoras subtis dos princípios a transmitir, que não se reportam à Criação nas ao Criador, ao sagrado. Além desta função as palavras com valor simbólico têm também a qualidade de servirem como suporte para invocações e, se é certo que a magia também opera em sentido invocatório, as entidade invocadas são de ordem e grau completamente diferente num caso ou no outro. Hoje está muito divulgada – frequentemente de modo deficiente – a técnica hinduísta e budista dos “mantra” que, na versão espiritual religiosa que nos é mais próxima – a cristã – corresponde ao modo particular de oração praticado no quadro geral da mística, forma devocional particularmente activa no século XVII mas que continua a ter, os seus cultores em sede própria, sobretudo no catolicismo ortodoxo.
          Quanto à nomenclatura maçónica é preciso ter em atenção alguns aspectos determinantes. A tradição maçónica radica, desde a cristianização do Império Romano, no cristianismo. Como todas as religiões também o cristianismo usa uma língua sagrada, que lhe é própria para veicular a sua doutrina particular de revelação e, sendo o cristianismo uma sequela do judaísmo, a sua língua sagrada é o hebraico, embora tradicionalmente se sirva do latim ou do grego como línguas litúrgicas. Um breve estudo às línguas em que se exprimiu Jesus é, neste aspecto, revelador.
          Ora, a língua hebraica constitui uma estrutura cabalística com todas as consequências implícitas neste facto. Sabe-se como a cabala privilegia o sentido oculto e profundo das palavras, sobretudo quando se trata de nomes, cuja essência é de ordem sagrada. E, na maior parte dos casos, as palavras ou nomes que se usam nos ritos maçónicos são de origem hebraica.
          Para responder concretamente à sua pergunta não creio que exista uma obra à disposição do público que “revele” o sentido mais íntimo de tais palavras pois o sentido que ocultam não pode ser transmitido discursivamente em obra escrita, não tanto devido à regra básica do segredo iniciático mas, sobretudo, porque desse modo a sua transmissão perde qualquer eficácia. Resta, no entanto, o sentido mais exterior, tal como o que foi tratado mais acima relativamente à palavra do cobridor do XXV Grau do REAA.
          No que respeita ao nível exterior creio que a única forma de o penetrar será procedendo a um estudo dessas palavras no contexto da língua que as suscitou, apreendendo-lhes o significado comum. Para o acesso aos aspectos mais profundos julgo ser necessário dispor de conhecimentos ligados à cabala sobretudo no que respeita ao valor numérico dos vocábulos e conhecer o tipo de operações envolvidas, nomeadamente o “notarikon”, a “gematria” e a “themurah”. Claro que, sendo o acesso a uma verdadeira Iniciação à operatividade cabalística algo de remoto para o comum dos mortais – apesar das divulgações pseudo didáticas que por aí andam – resta o modo especulativo que pode aclarar muitas coisas. O que recomento para a pergunta que me faz é justamente o estudo das palavras usadas em Maçonaria indo à sua fonte, ou seja, às línguas respectivas e, no caso do judaísmo, munir-se de um conhecimento, mesmo que elementar da tradição cabalística.
          Cordiais saudações.
          Eques Peregrinus.

  2. “Quem” procedeu a essa substituição? Porque o fez? A passagem do modo operativo ao especulativo encerra muitos mistérios.”

    Terá alguma coisa que ver com aquilo que René Guénon chama de “correntes” contra-iniciáticas?

    Forte Abraço
    Abraham Feuerberg

    1. Viva, Abraham Feuerberg!
      Quanto à Maçonaria moderna, posterior ao início do século XVIII, nos primórdios da modalidade especulativa houve forte confusão e substituição do sentido de certos símbolos constantes na modalidade operativa. Os próprios maçons operativos não passavam aos recém-chegados, que não eram da Arte, certos segredos relacionados com alguns dados simbólicos, particularmente os que envolviam segredos da construção que, em grande parte, eram de cariz geométrico. Sem o conhecimento teórico e prático dessa simbologia, os especulativos encontraram-lhe novos sentidos, na maior parte das vezes de ordem religiosa ou moral perdendo-se, em muitos casos, o valor original de certas referências da simbologia maçónica. No entanto, na actualidade, um maçon que se dedique à simbólica pode recuperar muitos desses valores da Maçonaria clássica. Relativamente à pergunta que faz, seja consciente e voluntária ou inconsciente e irreflectida, qualquer deturpação dos conteúdos simbólicos originais funciona sempre como uma contra-iniciação, porque ou desvia ou impede a tomada de consciência de certas realidades. Creio que Guénon se referia às correntes contra-iniciáticas que, por ignorância, fantasia ocultista ou demasiado apego a conceitos profanos obstam voluntariamente à comunicabilidade da verdadeira Tradição iniciática. Abraço.

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