Os Símbolos da Natureza e a Natureza dos Símbolos

Henrique Poisão – Caminho – Capri (1882)

Toda a imagem provenha ela da própria natureza ou da mão humana, seja figurativa ou abstracta, é sempre a representação de algo que a transcende. E isto é igualmente válido para aqueles casos em que a coisa – ou a sua imagem – parece esgotar em si mesma o seu sentido integral, como se o simples facto de existir fosse suficiente para justificar completamente essa existência, nisso se cumprindo a sua razão de ser.

Na verdade, nenhuma coisa se representa a si própria, o que não faria sentido pois constituiria uma espécie de redundância. Tudo o que existe ou, pelo menos, tudo o que os sentidos possam perceber, é uma representação de algo que, devido à sua natureza não pode exprimir-se directamente no plano existencial. Essa impossibilidade é superada mediante um sistema de analogias e correspondências, em que os princípios não manifestados se exprimem na manifestação por intermédio de elementos que, dada a sua natureza e função, deles se tornam homólogos e os representam.

A noção de simbolismo resume-se à compreensão deste mecanismo de representações. E se é verdade que, em rigor, nem todos os elementos que compões a natureza manifestada são símbolos, no sentido em que representam princípios transcendentes, todos eles representam qualquer coisa que não podendo apresentar-se de modo directo no plano da manifestação, aí age por interpostos elementos representantes.

O exercício da Arte está especialmente relacionado com a noção das representações visuais dado que sua função consiste precisamente em exprimir ideias ou sentimentos, através de imagens que se constituem como elementos simbólicos, alegóricos ou metafóricos, apresentando-se sinteticamente em lugar de elementos que, se não fora pela síntese da imagem, dificilmente poderiam tornar-se instantaneamente perceptíveis.

De facto o que o discurso verbal alcança de modo explicativo e elaborado a imagem transmite de forma expositiva e imediata. A imagem projecta-se instantaneamente no espaço enquanto a palavra se desenrola no tempo. Os símbolos visuais são próprios dos povos sedentários, cativos da extensão da lavra ou da oficina, enquanto os símbolos sonoros pertencem aos povos nómadas, submetidos à duração da transumância e da respectiva jornada.

 

 

Carlos Dugos

 

 

 

 

10 meses ago

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