Sabedoria, Força e Beleza. Do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Sabedoria, Força e Beleza. A unidade ternária. Do Rito Escocês Antigo e Aceite.

Wall Painting from the Temple of Longing – Paul Klee

No Templo maçónico do Rito Escocês Antigo e Aceite, o centro da Loja, ou seja, o ponto em que a vontade do Céu se exprime na Terra, é rodeado por três colunetas, cada uma delas representando um aspecto específico determinante do modo de pensamento, de acção e de sentimento que caracterizam a tradição maçónica.

São tês princípios interdependentes, consubstanciando-se o conjunto naquilo que poderá designar-se como uma “triunidade”, uma unidade composta por três aspectos distintos entre si.

A Sabedoria não tem como manifestar-se sem o concurso da Força e da Beleza; a Força, sem Sabedoria e Beleza gera o acto imperfeito; a Beleza que não se apoie na Sabedoria e na Força é ilusória e superficial nos seus efeitos. Embora este ternário corresponda a uma unidade composta, o facto é que o próprio simbolismo direccional indica a existência de uma hierarquia que gradua, qualitativamente, cada um dos elementos do conjunto.

Com efeito, a Sabedoria reporta-se ao Venerável Mestre que representa a qualificação maior em Loja; a Força diz respeito ao I Vigilante, Oficial que tem o segundo lugar na hierarquia e a Beleza é próxima do II Vigilante, que ocupa a terceira categoria do oficialato.

Em termos geométricos e de qualificação espacial, a Sabedoria apresenta-se a Oriente, a Força a Norte e a Beleza a Sul ou, mais precisamente, a Força a Noroeste e a Beleza a Sudoeste. Estas colunetas devem posicionar-se entre si, formando um triângulo rectângulo cuja extensão dos lados obedece à proporção 3x4x5 aludindo ao teorema de Pitágoras, base de uma série de desenvolvimentos geométricos e cálculos matemáticos. Este triângulo teve longa aplicação na Maçonaria operativa, sobretudo para encontrar, no terreno, o ângulo recto correspondente a uma esquina da construção. Para além disso, tem um sentido simbólico particular uma vez que encontra a relação estabelecida entre o três – enquanto alusão ao espírito – e o quatro – por referência à natureza material – no cinco – elo de ligação entre ambos e “entidade” central, mediando entre a vontade do Céu e a acção na Terra.

triangulo

Triângulo pitagórico e a posição das três colunetas. E – Sabedoria a Oriente; D – Força a Norte; F – Beleza a Sul.

 

Muitas outras relações simbólicas legítimas podem extrair-se dos vários elementos que formam esta estrutura que, repita-se, não é apenas geométrica e matemática mas oculta um profundo sentido simbólico ou melhor, é ela própria um símbolo, o que significa que se apresenta na manifestação em lugar de, ou como representante, de um princípio espiritual cuja natureza abstracta é inexprimível de outro modo que não seja através do símbolo que, por analogia, lhe corresponde.

Ao ser iniciado na Ordem, o Aprendiz é recebido na Coluna do Norte que é vigiada frontalmente pelo II Vigilante, instalado a Sul, junto à coluneta da Beleza. Dessa coluneta, pela mão do II Vigilante, recebe a cordialidade fraternal com que a Loja tolera a sua ignorância quanto aos mistérios da Ordem. Quando passa a Companheiro, transita para a Coluna do Sul e aí recebe o apoio do I Vigilante que, instalado no Norte junto à coluneta da Força, observa o que se passa a Sul e lhe transmite o poder activo para que execute o seu trabalho. Por fim, como Mestre, senta-se na coluna que mais lhe agradar, recebendo a influência que escolher. No entanto, sendo Obreiro da Câmara do Meio, é do Oriente, do Venerável Mestre e da Sabedoria, que lhe vem o influxo principal.

Em ritos de origem britânica, como o de York e de Emulação, por maior proximidade às representações cristãs, o ternário de que aqui se fala não só tem outra colocação espacial, já que se desenvolve alegoricamente ao longo dos degraus de uma escada que une o Céu à Terra, mas assume a forma das Virtudes Teologais do cristianismo, designadas por Fé Esperança e Caridade. Assim, a Sabedoria corresponderia à Fé, a Força à Esperança e a Beleza à Caridade, correspondência em que os sentidos de cada um dos elementos e do conjunto dos tês são absolutamente homólogos, uns revestindo o modo fideísta e outros o modo iniciático. Naturalmente, numa tradição de construtores, como é o caso da tradição maçónica, os símbolos apresentam-se, no Rito Escocês Antigo e Aceite, em coerência com um repertório arquitectónico que justifica o recurso às colunetas para corporizar esses três princípios.

Se do ponto de vista religioso a Fé se constitui mediante uma inspiração convicta sobre a realidade espiritual, do ponto de vista iniciático, a Sabedoria refere-se ao conhecimento dessa mesma realidade não apenas por inspiração e convicção mas também por pensamento e razão. Se o símbolo cristão da Fé é a Cruz, a Sabedoria é representada, nas Lojas do rito de que aqui se fala, por uma coluneta jónica cujo capitel é formado por duas espirais, desenvolvendo-se na horizontal, ligadas entre si, remetendo para a ideia de duas ordens diferentes de realidade, todavia ligadas e activas através de movimentos de concentração e expansão, que são próprios do simbolismo espiralado. Oriunda da cultura helénica, a coluna Jónica apareceu na Ásia Menor ligada à arquitectura funerária. O Símbolo da Esperança teologal é a âncora, enquanto a Força, que maçonicamente lhe corresponde, é representada por uma coluneta dórica. A âncora remete para a ideia de uma fixação capaz de obstar à deriva. Por ela, uma embarcação imobiliza-se à superfície, a salvo de ventos e correntes. Tal fixação é análoga à tomada de uma acção que evite a deriva da consciência, acção essa que é a do maçon, ao optar por fixar a sua vida na Ordem, de modo a poder estabilizar-se espiritualmente. Por sua vez, a Caridade pressupõe um elevado grau de cordialidade e, com efeito, o seu símbolo é o coração. Na estrutura maçónica, aqui em referência, corresponde-lhe a coluneta da Beleza erguida segundo a ordem coríntia.

Em certos modos “rituais” da Maçonaria dita liberal, onde o conceito de sagrado foi obliterado por noções filosóficas e de cariz ideológico, as designações: Sabedoria, Força e Beleza foram substituídas por um ternário lendariamente atribuído ao maçon Saint Martin: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Como os princípios de ordem espiritual não podem ser reduzidos a versões filosóficas ou ideológicas sem que a sua eficácia se perca, é extremamente difícil encontrar alguma analogia ou correspondência entre as virtudes teologais, as colunetas do Rito Antigo e Aceite e os conceitos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Isto, claro está, em coerência com a regra doutrinária, comum a todas as correntes iniciáticas, que coloca a noção de sagrado no centro da natureza e função deste tipo de organizações.

A discussão deste assunto, porventura polémico, é no entanto extremamente importante pois pode constituir um subsídio para que se aclare e alcance uma definição incontroversa acerca da natureza e função da Maçonaria. Neste aspecto, haverá que ter em conta que as doutrinas iniciáticas não devem sujeitar-se às vicissitudes conceptuais do mundo profano mas manterem incólume a sua estrutura doutrinária, pois dela depende a eficácia da sua função, independentemente de épocas e de contextos. Na verdade, em termos de espaço, de tempo e de consciência a Maçonaria nada tem em comum com o mundo profano não necessitando, de modo algum, de encontrar nele inspiração. Pelo contrário, é a doutrina arcaica e perene da Maçonaria, directamente ligada ao sagrado, que pode inspirar os profanos qualificados para a entenderem e adoptarem, promovendo-lhes a consciência da realidade, muito para além de conceitos filosóficos ou ideológicos.

(1) Em Maçonaria, tanto na longa fase da operatividade como na moderna versão especulativa, o número cinco, tal como o pentagrama, tem um profundo sentido simbólico que seria não só deslocado mas impróprio desenvolver aqui.

                                                                                                    Eques Peregrinus

 

7 meses ago

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