A Tradição Espiritual Iniciática e as Confusões Positivistas

Labirinto

Um dos flagelos das modernas lojas maçónicas regulares é a ignorância generalizada de grande parte dos seus membros, seja por falta de estudo ou por desinteresse cultural. O deficiente conhecimento de uma série de matérias concernentes ao mundo profano e uma quase total inconsciência acerca da natureza e objectivos da Maçonaria faz com que se introduzam na Ordem confusões e contradições, sobretudo pela mistura de conteúdos profanos com outros de ordem iniciática, promiscuidade que não ocorreria se houvesse uma consciência mais aprofundada.

Com efeito, colocar no mesmo plano aspectos iniciáticos e profanos concede uma importância excessiva e deslocada aos que provêm do mundo vulgar e retira superioridade e eficácia aos que surtem da Iniciação, tudo se saldando por um produto neutro, falho de sentido, em que as partes constituintes se anulam reciprocamente.

Sem que na sua maioria os maçons disso se apercebam, a mentalidade média nas lojas situa-se numa faixa ideológica que se estende desde o positivismo, com nuances neo-iluministas, ao ateísmo passando por um materialismo mais ou menos explícito e de graduações várias. Esta predisposição será normal entre não maçons e terá cabimento compreensível em obediências ditas liberais ou irregulares, devido ao facto de nelas não ser obrigatório observar o sentido espiritual próprio de qualquer instituição iniciática como é o caso da Maçonaria.[1] Porém, nas obediências ditas regulares, em que a noção de uma dimensão espiritual da realidade é regra fundamental, a predisposição mental atrás referida será anómala e sem sentido, já que constitui uma contradição entre a doutrina aí praticada e o conceituado profano que não reconhece os aspectos espirituais, deles abdicando.

Nas “Constituições” ditas de Anderson, sustentáculo doutrinário da Maçonaria considerada regular, pode ler-se a certo passo: “Todo o maçon é obrigado, em virtude de seu título, a obedecer à lei moral. E se compreender bem a Arte, ele jamais será um ateu estúpido ou um ímpio libertino.” Aliás, neste tipo de obediências, a candidatura à Iniciação depende do juramento confirmando a crença numa dimensão espiritual da realidade e numa entidade criadora e divina, representada em Maçonaria pelo símbolo designado por Grande Arquitecto do Universo. De resto, o primeiro landmark[2] da Maçonaria regular estipula como ponto obrigatório “A fé em Deus, Grande Arquitecto do Universo”. Além disso, durante o rito de Iniciação, o recipiendário afirma depositar a sua confiança em Deus e os seus juramentos são prestados sobre o livro da lei sagrada.[3] Mais, nas lojas em causa, todos os ritos são praticados sob a divisa “À Glória do Grande Arquitecto do Universo” não por razão de fé mas por coerência com uma via de conhecimento que busca compreender e venerar as mais altas instâncias espirituais.

Muitas vezes, mesmo no seio das obediências regulares, estas disposições relativamente aos aspectos espirituais não são aceites pelos membros menos informados e com uma propensão mais marcadamente profana. Recusam-nas sob o pretexto de que, não sendo a Maçonaria uma corrente religiosa, as alusões a qualquer forma de espiritualidade são inadequadas devendo ser substituídas pelas que se dirijam apenas ao nível psicológico, entendido como sendo o mais elevado que reconhecem às possibilidades do indivíduo. Esta convicção deve-se apenas à falta de conhecimento e esclarecimento acerca da natureza e objectivo de qualquer organização iniciática inclusive da própria Maçonaria. Na verdade, todas as organizações que forneçam uma Iniciação regular são, por definição, iniciáticas e a Iniciação consiste essencialmente na transmissão de uma influência espiritual que transcende a natureza humana. O que assim não seja e leve o nome de Iniciação não passa de uma confusão ou de uma paródia, em todo o caso uma prática irregular e sem qualquer eficácia real.

A vivência espiritual não é privilégio de uma via religiosa pois é extensível a qualquer instituição iniciática regular, em coerência com os actos rituais que aí se praticam. Se do ponto de vista religioso o conceito de sagrado se baseia na fé, do ponto de vista iniciático a sacralidade estabelece-se pela via do conhecimento. A vivência do sagrado é, pois, comum à fé e ao conhecimento, à religião e à Iniciação. A ignorância acerca deste duplo modo como a espiritualidade pode expressar-se leva à confusão entre fé e conhecimento, do mesmo modo que a confusão entre conhecimento e fé leva a entender como manifestação de fé tudo o que se reporte ao sagrado.[4] Levando mais longe esta linha de ignorância, enformadora de uma mentalidade positivista e ateia, afirma-se a não existência de realidades espirituais, o que corresponde a dizer-se que não há lugar para modos religiosos ou iniciáticos.

Evidentemente, cada um tem o direito de pensar como quiser e puder. Porém, que sentido fará a não-aceitação das realidades espirituais por parte dos que integram organizações iniciáticas como é a Maçonaria? São casos em que, ou existe uma grande contradição, ou se está perante a tentativa de implementar conceitos profanos usurpando o nome de uma instituição iniciática venerável. Neste caso trata-se de uma manobra de inversão dos valores e das funções, em que já não é a Maçonaria que forma as mentalidades; são as mentalidades que formam a Maçonaria. Haverá ainda uma terceira e última possibilidade, aparentemente mais desculpável, não obstante os seus efeitos nefastos: a de que tudo isto se deva apenas a uma sistemática ignorância tanto mais lamentável por provir exactamente dos que, melhor que ninguém, deviam conhecer a doutrina iniciática que aparentemente desejam cumprir.

Na origem desta situação está o problema eternamente apontado que é o da cooptação de novos membros para a Maçonaria. Infelizmente acontece recorrentemente que certos aspirantes à Iniciação mintam ao declararem uma fé que na verdade não sentem, pratiquem perjúrio ao jurar crer no que não admitem e, mais tarde, quando já maçons, evoquem ritualmente, mas com grande frivolidade, uma entidade que consideram absurda. Tal desonestidade não só atinge quem a pratica como acaba por prejudicar a limpidez dos trabalhos da Loja em que ocorra.

Em sentido inverso, é também possível que muitos demandadores da Luz maçónica crentes numa realidade espiritual e num ser supremo, acabem por ser iniciados numa obediência ou Loja em que tais realidades não sejam consideradas, o que constitui uma frustração de espectativas que, em certos casos, pode ter efeitos dramáticos.

Em grande parte, estas desconformidades provêm principalmente de duas falhas de critério. Por um lado, a deficiente consciência maçónica de quem apadrinha um novo membro que sabe – ou devia saber – não reunir as condições conciliáveis com a doutrina subjacente à obediência ou Loja a que se propõe. Por outro, a falta de informação e conhecimento prévio que, quem se quer tornar maçon, deve recolher acerca das várias modalidades existentes, sobretudo tendo em conta a grande dicotomia entre a Maçonaria dita regular, de feição espiritual e a designada por irregular, de feição positivista. Dessa informação e conhecimento depende a consciência com que se poderá aceitar ou recusar uma proposta de adesão à Ordem.

Concluindo, diga-se que o modo profano e o modo iniciático são irreconciliáveis. Quem escolhe o modo profano não deve abeirar-se das instituições que zelam pela tradição espiritual iniciática sobretudo porque existem, à disposição destes candidatos, instituições que, embora com designação maçónica, privilegiam a ideologia profana. Cite-se, a propósito, um aforismo evangélico que tanto serve à fé como ao conhecimento: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mâmon.”[5]

Eques Peregrinus

 

 

 

 

[1] Isto não significa que neste tipo de obediências não existam maçons e lojas mantendo inalterável o sentido iniciático que, por natureza e função, é de ordem espiritual.

[2] Landmark – regra fundamental da Maçonaria.

[3] Tratando-se de um profano ainda não iniciado, apenas em processo de Iniciação, faz sentido a exigência quanto à fé em Deus coisa, que já não seria exigível, em âmbito maçónico, a um maçon. Nessa condição a entidade correspondente a Deus designa-se simbolicamente como Grande Arquitecto do Universo, independentemente da religião que cada maçon possa seguir ou não.

[4] Esta questão foi abordada de modo mais desenvolvido em “Maçonaria Contemporânea – Reflexão e Autocrítica” – Eques Peregrinus. Ed. Lema D’ Origem.

[5] Mateus 6:24.

11 meses ago

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