Visão Naturalista e Espiritualista do Homem: entre a besta e Deus

God Judging Adam - William Blake
God Judging Adam – William Blake

 

Imaginemos um segmento de recta e três pontos equidistantes entre si. Nos pontos extremos coloquemos, respectivamente, o animal e Deus. No meio, no terceiro ponto, o Homem. Simbolicamente, a distância da Homem aos dois pontos referenciais é idêntica. São os dois pontos pelos quais várias escolas de pensamento medem o Homem.

Na visão naturalista o atractor[1] é o animal. O homem racional como o animal que pensa e que fala, na óptica aristotélica. O homem é definido tendo como referência o animal. O Homem é um animal biológico, com um organismo, uma classificação zoológica, uma espécie animal (homo sapiens sapiens) no entanto ele é racional (res cogitans) com um corpo (res extensa). O desabrochar antropológico do Homem é marcado também da relação dele consigo mesmo, com os seus semelhantes e com os animais[2]. Ao contrário do Homem, o animal nasce feito, acabado.

Na visão espiritual, o atractor é Deus. Na recta, o espaço topológico[3] entre o Homem e Deus é onde tudo se passa. O divino e o sagrado. O Homem para as religiões monoteístas é a imagem de Deus (imago dei). É através do homem que Deus se manifesta. Da mesma forma com as fábulas (natureza animal), o Homem produziu das mais belas histórias e metáforas com a mitologia. Da sua relação com Deus e Deuses “Os Deuses que vivem lá no alto, acima da superfície, continuaram a agitar-se, a quererem a todo o custo assemelhar-se aos mortais”[4]. De Zeus ou de Brama com e através do Homem. O Homem é espectador mas também realizador e actor. É a abertura ao Cosmos e ao Mundo na visão de Max Schlere, ou como José Ortega Y Gasset escreve “Sou Universo, mas, por isso mesmo, sou um… só”[5]. O Eu unificador. O Eu divino. O “animal” incompleto[6] capaz de se projectar no tempo.

Na verdade estas visões cruzam-se e transformam-se. Não são estanques nem finais. São pendulares.Giovanni Pico della Mirandola no Discurso Sobre a Dignidade do Homem (1480) revela que o Homem tem a liberdade de decidir entre dois espaços topológicos – animal e Deus, entre a besta e o divino – como escreve num dos mais belos trechos da sua obra de referência:

“.. Coloquei-te no meio do mundo para que daí possas olhar melhor tudo o que há no mundo. Não te fizemos celeste nem terreno, nem mortal nem imortal, a fim de que tu, árbitro e soberano artífice de ti mesmo, te plasmasses e te informasses, na forma que tivesses seguramente escolhido. Poderás degenerar até aos seres que são as bestas, poderás regenerar-te até às realidades superiores que são divinas, por decisão do teu ânimo”

Luís Bettencourt Moniz

[1] Terno utilizado na Física e que define um conjunto de comportamento característicos para o qual evolui um sistema.

[2] Santuários pré-históricos onde a manifestação cultural é realizada através dos animais. Mais tarde, com a tradição oral, através das fábulas que manifestam uma natureza animal.

[3] Espaço topológico é um conceito matemático de estruturas unificadoras cebtrais que permitem a convergência, conexidade e continuidade. E.J. Borowski, et J.M. Bborwein, Mathematics: Reference Dictionary Collins, 1988

[4] Gardin, Nanon História das Mitologias do Mundo Lisboa, Texto e Grafia, 2012, p. 9

[5] Ortega Y Gasset, José O que é a Filosofia?  Lisboa, Edições Cotovia, 1999, p.123

[6] A tabula rasa que Locke refere expressa que o Homem quando nasce é receptáculo virgem para o pensamento, os valores morais e a liberdade.

1 ano ago

2 Comments

  1. Excelente texto, caro Luís. Em rigor, creio que podemos dizer que a visão de Pico della Mirandola tinha já na altura doze séculos, é na verdade neo-platónica. Os créditos devem ser atribuídos a Plotino “A humanidade encontra-se suspensa a meio caminho entre os deuses e os animais.” Plotino
    Abraço
    Abraham Feuerberg

  2. Obrigado Abraham pela partilha e contributo, sobretudo pelo retorno a Plotino e à sua visão neo-platónica. Referi Pico della Mirandola não só pela beleza do texto mas porque ele abre o Renascimento.
    Abraço
    Luis Bettencourt Moniz

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